Há algum tempo, neste mesmo jornal escrevi que descomplicar e buscar soluções simples pode, e deve representar um dos caminhos que levam à inovação. Ainda nessa linha de raciocínio, a proposta que trago hoje continua elegendo a visão descomplicada dos fatos, como o melhor mecanismo para solucionar problemas dentro das nossas empresas. Veja o exemplo de uma conhecida narrativa que ilustra com propriedade esta questão. Uma multinacional situada no interior de São Paulo, fabricante de produtos de higiene e limpeza encontrou um problema em sua linha de produção de pasta de dente. De vez em quando, o equipamento falhava e não inseria o tubo de pasta dentro da caixinha, e o resultado era que, de tanto em tanto, uma caixinha vazia acabava sendo embalada junto com as cheias e o erro só era descoberto quando a mercadoria chegava aos pontos de venda, ou pior ainda, quando o consumidor abria o pacote em casa e via que havia sido lesado. Diante da situação problema, contrataram uma equipe de renomados engenheiros que após três meses e um investi- mento de aproximadamente oito milhões de reais, implantaram uma solução digna da NASA na esteira de produção dessa empresa. Tal solução envolvia uma balança de alta pre- cisão, sensores ultramodernos, um braço mecânico (que re- tirava as embalagens vazias da esteira) e um computador de última geração que parava a esteira sempre que um problema era encontrado, além de gerar relatórios detalhados sobre as falhas diagnosticadas. Pronto, problema resolvido! Custou caríssimo, mas funcionou. Dois meses de funcionamento depois, ao solicitar um relatório do sistema, um dos diretores percebeu que o mesmo havia funcionado apenas A SOLUÇÃO É MAIS SIMPLES DO QUE PENSAMOS, QUANDO DE FATO, PENSAMOS CORRUPÇÃO NOSSA DE CADA DIA
cinco dias após a implantação, e que estava desativado desde então. Desconcertado, deparou-se com uma questão: se o sistema estava desativado, como os erros haviam desaparecido? Foi aí que resolveu pedir explicações ao diretor de produção, que por sua vez chamou o encarregado do setor, que chamou um grupo composto pelos operadores da esteira, e no final foram todos para uma sala de reuniões, onde o diretor indagou diretamente a eles quem havia desligado o sistema, ao que um dos operadores respondeu “Nós desligamos chefe”, o diretor cada vez mais perturbado com a situação perguntou o porquê e o operador respondeu claramente “porque era uma chatice”. E emendou uma explicação de que sempre que o sistema encontrava uma embalagem sem tubo dentro, a esteira parava, o bracinho ia tirar a caixa, esbarrava em outras e derrubava caixas que estavam cheias, enfim era um atraso de vida. Por isso eles resolveram desligar “a coisa”. O diretor perplexo com a situação questionou aos que ali estavam e a si mesmo, “mas, se o sistema está desligado há tanto tempo, como foi que os problemas acabaram?” Atenção para a fantástica resposta do empregado: “Nós pensamos um pouco e decidimos resolver o problema do nosso jeito chefe, fizemos uma vaquinha de R$ 80,00 e compramos um ventila- dor daqueles que fica de pé. O colocamos ao lado da esteira, na saída da máquina de embalar e ligamos o bichinho na potência máxima. Desse jeito cada vez que vem uma caixinha vazia, o bichinho sopra ela pra longe da esteira que continua normalmente”. Moral da história: com 80 reais, criatividade e muito conhecimento de causa, os funcionários resolveram um problema que um grupo de engenheiros gastou oito milhões e uns
três meses para não resolver inteiramente. O alerta subentendido nesse case está na nossa resistência em ouvir quem realmente tem conhecimento de causa, e na nossa insistente mania de acreditar que para realizar alguma melhoria, atender a uma nova necessidade ou resolver algum problema, e que por via de regra, precisamos de soluções complexas e que demandam altos investimentos. O que precisamos na verdade, é aprender a sempre desafiar cada situação problema com questionamentos sobre a existência de novas formas de organizar e realizar as coisas, e de como incorporar soluções sem necessitar mover terra e céus, além de gastar muito. E para encontrar tais soluções, precisamos ouvir a todos os envolvidos (sem exceções) e deixar surgir ideias novas e melhores, sobre maneiras de realizar as atividades e os processos na empresa. Devemos sempre nos estimular e estimular nossas equipes a pensar. A era do conhecimento e da informação em que estamos inseridos exige essa postura. Pode parecer trabalhoso inicialmente, mas, na medida em que difundimos essa prática, os resultados serão melhores para todos, clientes, proprietários e para os próprios colaboradores que passarão a aprender mais e a utilizar suas capacidades intelectuais mais plenamente. Quase sempre as soluções são mais simples do que pare- cem, então, abramo-nos a escutá-las e aceitá-las. Despeço-me com uma frase do genial Leonardo da Vinci “A simplicidade é a extrema sofisticação”, e associada à criatividade, pode se tornar uma fonte de vantagens competitivas únicas.






