Conceitos têm origem na palavra africana “ubuntu”, que reforça a noção de coletividade

A Assintecal, em parceria com o SEBRAE e o Sindinova, realizou na noite de 19 de maio, no Espaço Sindinova, o Fórum de Inspirações Inverno 2017. A consultora Assintecal Tatiana Souza apresentou as tendências de moda daquela estação, antecipando-as aos empresários e designers de moda presentes. O tema deste estudo foi o conceito de coletividade, trazido pela palavra africana “ubuntu” (“eu sou porque nós somos”). Ele bate de frente com a individualidade, tão comum atualmente: as pessoas estão cada vez mais conectadas, porém solitárias.
Os conceitos apresentados na última edição do Fórum de Inspirações, realizado em Nova Serrana em outubro de 2015, foram transformados: no inverno 2017, serão reforçados através de texturas de pedras, metais e materiais rústicos e artesanais, buscando matrizes étnicas para reforçar o conceito de coletividade. Confira a entrevista com a consultora Assintecal Tatiana Souza, que falou sobre as tendências apresentadas.
“Ninguém nasce grande”
O Fórum de Inspirações Inverno 2017 é uma continuação do que foi apresentado na última edição?
Na verdade, as inspirações se transformam. Há, sim uma “continuidade” que, na realidade, funciona mais como um monitoramento. Percebemos como as tendências passam pelos estágios da pirâmide: algumas se fortalecem, outras perdem força. Esse monitoramento serve para que entendamos como um determinado conceito, que surgiu no conceito 3, agora está nos 60%, que representam a base da pirâmide, de forma consolidada. Um dia ela foi o início de uma história e hoje tomou uma proporção muito grande. Há também aquelas que se juntam e se tornam uma coisa só. Ou seja: transformação. O que isso nos diz? Que a pesquisa de coleção não pode parar nunca, por estar em constante mutação. Se quem cria para de pesquisar, não se entende o processo de transformação.
O contexto que engloba todo o fórum é a palavra “ubuntu”. O que ela simboliza?
“Ubuntu” é uma palavra de origem africana, que significa “eu sou porque nós somos”. Isso traz à tona o sentimento de coletividade, que tem sido buscado pela sociedade mundial. É o “tudo junto e misturado”. Dentro do Fórum de Inspirações, o ponto de partida do núcleo é o conceito 3, que começou a ter a linha de raciocínio desenvolvida a partir do livro “Brasil: uma biografia”, das antropólogas Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling. Ela narram a história do Brasil sob uma outra vertente, afirmando que esse “furdunço” que há hoje existe desde quando Cabral colocou os pés nestas terras, e trazem o conceito de mestiçagem, que é o que todos nós somos. Nossa base é muito mais africana do que europeia e, controversamente, somos extremamente cinza e bege no inverno. Não ressaltamos a etnia, através das cores, estampas e texturas.
Atualmente tudo é motivo de discussão, que gera conflitos, mas que também leva as pessoas a pensar. Como tal realidade é abordada pelo Fórum de Inspirações?
O entorno nos influencia. A conectividade é exemplo disso: estou no meu celular, no meu mundinho, porém conectada ao mundo. As fronteiras se diluíram e hoje o concorrente não é apenas o meu vizinho, mas também um site chinês, por exemplo. Eu posso comprar de qualquer pessoa.

Constanza Pascolato afirma que há um excesso de produtos no varejo e que, atualmente, todos querem “pra já”. Segundo ela, antecipar tendências perde o sentido e tudo torna-se obsoleto rapidamente. Como essa nova realidade afeta o processo de criação de moda que instaurou-se em Nova Serrana e que está sendo reforçado com o Fórum de Inspirações?
Tudo é uma questão de identidade. Acredito que o mercado possua várias vertentes e que cada um segue o caminho mais adequado. O Fórum de Inspirações é uma ferramenta que materializa a identidade da marca, fazendo dela aquilo que é melhor em termos de conceito. Ou seja: quem copia enlouquece, pois o volume criativo aumenta e fica cada vez mais difícil acompanhar. O desespero fica em quem não possui identidade. Ainda percebo que, a cada estação, as fábricas de Nova Serrana tomam um rumo, perdendo a linha de raciocínio da identidade. É como se, semestralmente, as marcas acabassem e fossem criadas marcas novas. Se a identidade da marca está bem definida, todo o processo também estará.
E como tal questão pode ser resolvida?
A falta de planejamento leva ao fracasso, pois não se prepara para os riscos. Empresas estão morrendo agora porque já estavam doentes. Tenho clientes que, em meio à crise, cresceram 50% – justamente por terem feito a lição de casa e planejado. A conectividade e o compartilhamento trazem outros produtos e serviços, que atendem à necessidade imediatista. Temos, também, uma nova geração de consumidores, que se relaciona com o consumo de forma bem diferente do que nossos pais e avós fazem. O design entra neste processo quando o empresário o enxerga como um investimento, não como um custo. Se você não sabe para onde irá e não se prepara para isso, você não chegará. As grandes empresas não chegaram onde estão do nada. Ninguém nasce grande.
Antônio Azevedo
Assessoria de Comunicação | Sindinova
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